11 - PROSA FIADA - O Exercício da Crônica


Vivemos hoje numa aldeia global, estamos simultaneamente em todos os lugares e nossa individualidade se universaliza de tal forma que os mais distantes acontecimentos afetam nossas vidas. Tudo nos atinge estampado num gráfico que é o jornal.

Ora, a função do jornal é abrir uma janela para o mundo, transmitir impressões sob a forma de notícias, buscando o fato em si e deixando em segundo plano aqueles que participam da cena.

Neste contexto deve a crônica ensinar ao leitor ver mais longe, além do factual, elaborando uma linguagem que traduza as muitas linguagens cifradas do universo.

"Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um ficcionista, na qual este é levado meio ]a tapas pelos personagens e situações que, azar dele, criou porque quis. Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino." (1)

O exercício da crônica é o testemunho de nosso tempo. A crônica conta conversas, recolhe frases, observa pessoas, registra situações, tudo com um olhar lúdico de quem quer superar a realidade sufocante. É como conversa fiada onde todos os assuntos se encontram, sempre na base do dialoguismo, bate-papo ou reunião de amigos. Compor essa conversa fiada é realmente uma arte ingrata, principalmente porque ela se escraviza à urgência da máquina da empresa jornal, que tem hora para fechar. (2)

A crônica deve injetar um sangue novo em um fato qualquer do cotidiano, trabalhando com um conceito de verossimilhança que liga a coerência do texto com a coerência do fato acontecido. A partir do real a crônica usa suas artimanhas para alcançar uma dimensão mais profunda, chegando à crítica social.

O familiar e gasto deve ser rompido através do insólito e estranho a fim  de que uma nova experiência nos atinja intensamente e se torne nova experiência nossa, verdadeira informação estética. De modo geral a crônica amplia e enriquece a visão da realidade. Permite ao leitor a vivência intensa e ao mesmo tempo a contemplação crítica das condições e possibilidades da existência humana.

A crônica é o lugar privilegiado em que a experiência vivida e a contemplação crítica coincidem num conhecimento singular, cujo critério não é exatamente a verdade e sim a validade de uma interpretação profunda da realidade tornada experiência. Na fruição da crônica podemos assimilar tal interpretação com prazer (vivendo-a) mesmo no caso dela, no campo real, se nos afigurar avessa às nossas convicções e tendências.

Embora não transmitindo nenhum conhecimento preciso, capaz de ser reduzido a conceitos exatos, a crônica suscita uma poderosa animação de nossa sensibilidade, da nossa imaginação e do nosso entendimento , que resulta prazenteira. Este prazer pode acontecer através da empatia com situações, emoções veementes, sofrimentos e choques dolorosos, sem que deixe de ser prazer, já que tudo decorre em nível simbólico.

Nada tão simples, nem tão fácil quanto qualquer desavisado possa imaginar.

1- Moraes, Vinícius de. Para viver um grande amor. José Olympio, RJ, 1962, pág. 7.
2- Sá, Jorge de. A Crônica. Ática, SP, 1985, pág. 75.

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