14 - CADA UM É CADA UM - O Cronista


Quem narra a crônica é seu autor e tudo o que ele diz parece ter acontecido de fato, como se os leitores estivessem lendo uma reportagem. Embora não seja densa, a crônica demonstra a liberdade do cronista que pode transmitir a aparência de superficialidade para desenvolver o seu tema; os fatos acontecem como se fossem por acaso.

Mas, na verdade, o autor sabe que nada é por acaso na construção do texto, pois o cronista que deseja cumprir sua função de antena do público, captando o que a maioria não está preparada para apreender, tem de explorar as potencialidades da língua, buscando construções de frases com várias significações, descortinando aos leitores uma paisagem até então esmaecida ou ignorada.

O cronista deve juntar harmoniosamente os dados que a realidade vai lhe oferecendo, usando a imaginação para selecionar esses dados e no modo como os substitui no plano do texto por equivalentes, além de inventar os que estão faltando. Sua linguagem adquire logicidade e um ritmo próprio, repensando constantemente pelas vias da emoção, aliadas à razão. É fundamental que o cronista se defina em um tempo e espaço compondo uma cronologia, não limitadora, mas sim esclarecedora de sua (nossa) relação com o mundo.

Recriar os flagrantes de rua ou os incidentes domésticos, colocar em cenas pessoas semelhantes a tantas outras que conhecemos ou de quem já ouvimos falar é a ligação com o real da qual se utiliza o cronista, através de diálogos engraçados, irônicos, sem agressividade, pois o texto deve ser leve mas sempre com uma visão crítica.

Não há dois cronistas iguais, nem duas crônicas idênticas, porque a mudança eterna do cotidiano determina a maleabilidade do texto e porque a crônica capta a variação emocional do autor. (1)

1- Massaud, Moisés. A Criação Literária. Melhoramentos, São Paulo, 1979, 9a.ed., pág. 251.

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