3 - UM JEITO BRASILEIRÍSSIMO - A Origem da Crônica Moderna



"Para qualquer brasileiro a palavra crônica tem sentido claro e inequívoco, embora ainda não dicionarizado: designa uma composição breve, relacionada com a atualidade, publicada em jornal ou revista. De tal forma esse significado está generalizado que só mesmo os especialistas em historiografia se lembram de outro sentido bem mais antigo, o de narração histórica em ordem cronológica." (1)

Ora, no Brasil, a crônica é o relato poético do real, situada na fronteira entre a informação da atualidade e a narração literária. Um gênero plenamente definido, segundo José Marques de Melo. (2) 

O mesmo não ocorre em outros países. No jornalismo mundial a crônica está mais vinculada ao relato cronológico da narrativa histórica. Sua natureza é controvertida e varia de país para país. Foi com o sentido de relato histórico que a crônica chegou ao jornalismo.

Alberto Martinez atribui à crônica uma origem latina (França , Espanha, Itália) semelhante mas sem correspondentes precisos no jornalismo alemão, inglês e norte-americano. (3)

Juan Gargurevich afirma que a crônica é a antecessora imediata do jornalismo informativo. Essa tese encontra respaldo na bibliografia do jornalismo europeu de raízes latinas. (4)

Assim sendo, na Itália a crônica aproxima-se mais do sentido que no Brasil atribuímos à reportagem. Na França oscila entre a reportagem setorial e o colunismo. Na Espanha combina notícia e o comentário. No jornalismo português a crônica está bem próxima da sua caracterização no Brasil.(5)

Na Inglaterra existem dois gêneros bem próximos da crônica: actions stories e essay, ambos relatos poéticos do real. Na Alemanha encontramos a glosa, comentário breve sobre o cotidiano. Nos Estados Unidos alguns tipos de feature stories assemelham-se à crônica como a entendemos e, na Espanha, a croniquilla pretende ser uma espécie de crônica da vida diária, também chamada folhetin. (6)

É como folhetim que a crônica surge no jornalismo brasileiro, no século XIX. Era publicada junto com pequenos contos, artigos, ensaios breves, poemas em prosa. Um espaço que os jornais reservavam para informar aos leitores sobre os acontecimentos da semana. Nomes ilustres foram pouco a pouco transformando o folhetim, tornando-o um gênero autônomo no jornalismo, transformando-o na crônica moderna. Para tanto contribuíram Francisco Otaviano, José de Alencar, Manuel Antonio de Almeida, Machado de Assis, Raul Pompéia, Coelho Neto e outros. (7)

Afrânio Coutinho afirma que a crônica adquire personalidade com Machado de Assis, o qual consagrou-se no gênero, contribuindo consideravelmente para a sua evolução. (8) "Machado de Assis ao praticar a crônica considerava-se escrevendo "brasileiro", pois a crônica exigia uma participação direta e movimentada na vida mundana - reuniões da sociedade, teatro, parlamento - induzindo o cronista a incorporar a linguagem coloquial à sua narrativa, abandonando pouco a pouco o estilo empolado e discursivo da prosa jornalística e literária de então." (9)

O perfil nacional da crônica, o gênero brasileiro firmou-se a partir de 1930, com nomes como o de Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drumond e Ruben Braga, que, de certo modo, seria o cronista exclusivo desse gênero.

A partir desta época o desenvolvimento da imprensa assume proporções empresariais, conduzido a uma diversificação do seu conteúdo e à ampliação das seções permanentes, para atender um leitor mais exigente. Nesse âmbito a crônica adquire um lugar especial, sendo o cronista o intérprete das mudanças que ocorrem na sociedade.

1- Rónai, Paulo. Um Gênero Brasileiro: A Crônica. In : Hower, Alfred e Preto-Rodas, Richard, org. Crônicas Brasileiras. Center for Latin American Studies, University of Florida,1971.
2- Melo, José Marques. A Opinião no Jornalismo Brasileiro. Vozes, RJ, 1985, Pág.111.
3- Martinez, Alberto José Luiz. Redaccíon Periodística. ATE, Barcelona, 1974. Cap. VIII- A Crônica Como Gênero Jornalístico.
4 - Gargurevich, Juan. Gêneros Periodísticos. Ciespal, Quito, 1982, pág. 109-149.
5- Idem 2, pág.112,113.
6- Idem 2, pág. 113.
7- Idem 2, pág. 114.
8- Afrânio Coutinho. Ensaio e Crônica. In: A Literatura no Brasil. Sul Americana, RJ, 2a. ed. vol.VI, 1971, pág. 112.
9- Idem 2, pág. 114.

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