4 - MOSTRANDO O OUTRO LADO DE TUDO - Conceituação da Crônica


Por meio de assuntos de composição aparentemente solta, do ar de coisa sem importância que costuma assumir, a crônica se ajusta à nossa sensibilidade de todo dia. Retratando a vida, a crônica serve a vida de perto, pois, está perto de nós. Despretensiosa, ela se humaniza e aprofunda seu significado.

A crônica nos ajuda a estabelecer ou restabelecer a dimensão das coisas e das pessoas, quase sempre com humor. Sua perspectiva não é grandiloqüente, nem pomposa, mas do simples dia-a-dia.

A fórmula moderna reúne um fato pequeno, uma notícia, um toque de humor, uma pitada de poesia e representa o encontro mais puro da crônica com a vida real e com seu cúmplice favorito, o leitor. Mas, apesar de seu ar despreocupado, de quem está falando de coisas sem maior conseqüência, a crônica penetra fundo no significado dos atos e sentimentos do homem, aprofundando a crítica social.

Aprende-se muito quando se diverte e os traços simples, graciosos e breves da crônica são um veículo privilegiado para mostrar de modo persuasivo muita coisa, que, divertindo, atrai e faz refletir, amadurecendo nossa visão das coisas. Por meio de um zigue-zague de aparente conversa fiada, a crônica pode dizer as coisas mais sérias, como as descrições da vida, o relato caprichoso dos fatos, o desenho de certos tipos humanos, o registro de algo inesperado. 

Tudo é vida, tudo é motivo de experiência ou reflexão, divertimento e esquecimento momentâneo de si, sonho ou piada que nos transporta ao mundo da imaginação, para voltarmos um pouco mais sábios. (1) A função da crônica portanto é aprofundar a notícia e deflagrar uma profunda visão das relações entre o fato e as pessoas, entre cada um de nós e o mundo em que vivemos.

Lourenço Diaféria traduz com sentimento e paixão o sentido brasileiríssimo da crônica:
"A crônica é a reinvenção da lua abstraída das violações científicas e espaciais, é a metafísica dos postes e das azaléias, é a lupa que permite confirmar com a palavra escrita, se o sabonete Palmolive continua a abrir os poros e manter a pele leve e acetinada. A crônica existe para dar credulidade aos jornais, saturados de notícias reais demais para serem levadas a sério. A crônica descobre as pessoas no meio da multidão de leitores. Ela revela ao distinto público que, atrás do botão eletrônico, existe um baixinho resfriado e de nariz pingando, que assoa e vocifera. A crônica serve para mostrar o outro lado de tudo - dos palanques, das torres, de eclipses, das enchentes, dos barracos, do poder e da majestade. Ela não consta no periódico por condescendência. A crônica é a lágrima, o sorriso, o aceno, a emoção, o berro, que não tem estrutura para se infiltrar como notícia, reportagem, editorial, comentário ou anúncio publicitário no jornal. E, contudo, é um pouco de tudo isso. " (2)

1- Antonio Cândido. A vida ao rés-do-chão. In: Para gostar de Ler Crônicas. SP, Ática, 1979/80, vol 5, pág.12.
2- Diaféria, Lourenço. Depoimento -Escritor Brasileiro/81. Secretaria Municipal de Cultura, São Paulo, 1981.

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