6 - EQUILIBRANDO-SE EM LIMITES ESTREITOS - Um Gênero Controverso


"Tida como um ponto na fronteira entre o jornalismo e a literatura, área de superposição regida por dois grandes astros do relato e em aparente convivência pacífica, a crônica vem sendo colocada em estreitos limites, aceitando com humildade ser gênero menor, jornalismo leve, o quase literário, quase jornalístico." (2)

A crônica ao longo de seu percurso tem informado, comentado e divertido com linguagem leve e descompromissada, afastando-se da lógica argumentativa ou crítica política para penetrar poesia adentro. É o relato poético do real o que a torna ambígüa e põe a descoberto a briga antiga e mal resolvida que existe entre literatura e jornalismo.

A crônica se equilibra entre o efêmero do cotidiano e o imortal do fato literário, ambigüidade que a transforma em um gênero difícil de ser produzido, classificado ou analisado, quer no texto jornalístico, quer no texto literário.

Aceitar a crônica como um ponto tenso implica reconhecê-la como um contraponto crítico para qualquer dos dois lados. Na contradição, um dos astros em combate revela o outro pelo que não é.

Assim, as classificações que aceitam a crônica como gênero jornalístico, longe de honrá-la, a colocam na rabeira, praticamente desqualificando-a, pois, depois dela só as cartas do leitor. A classificação no gênero literário não é muito melhor. A imaginação criativa dos grandes romancistas e escritores a diminuem e desprezam, pois o cotidiano trivial tem pouco valor poético para estes (3). 

Ora, se a crônica assume um caráter de relato poético do real, colocando-se na fronteira entre informação da atualidade e narração literária, ela se torna um gênero jornalístico-literário. Como gênero jornalístico é um comentário, gênero nobre e, como literatura, é poesia e prosa.

Mas não é assim tão simples aceitá-la. A crônica foge a todas as regras do jornalismo, embora "lide com informações jornalísticas, se realize numa edição diária e efêmera, utilize a linguagem coloquial. Ela não participa do ambiente do jornal, escapa do processo de produção jornalística convencional, independe da formação profissional técnica, não obedece às determinações de tempo e espaço típicas, foge das regras de interesse informativo convencionalmente estabelecidas para o jornalismo". (4) A crônica é o lado arteiro de um jornalismo que insiste em ser crítico, libertário, inovador e humanizado, o que vem sendo sufocado pela técnica industrializada.

Da mesma forma a crônica suavizou sua linguagem, descasou-a dos adjetivos mais retumbantes e das construções mais raras, como as que ocorrem na poesia, prosa e discurso. Na sua construção não cabem a sintaxe rebuscada, com inversões freqüentes, nem o vocabulário opulento para significar que é variado, modulando sinônimos e palavras tão raras quanto soantes. Ela escapa das regras literárias operando milagres de simplificação e naturalidade, num país que costuma identificar superioridade intelectual e literária com grandiloqüência e requinte gramatical. (5)

Enquanto o jornalismo não a quer e a literatura a desdenha, ela prossegue seu caminho fazendo cúmplices, conquistando espaços.

1- Antonio Cândido. A vida ao rés-do-chão. In: Para Gostar de Ler Crônicas. Ática, SP, 1979/80, vol.5, pág.5.
2- Guaraciaba, Andréa. In: Melo, José Marques de. Gêneros Jornalísticos Folha de São Paulo. FTD/ECA/USP, São Paulo, 1987, pág. 85.
3- Idem 2, pág. 85.
4- Idem 2, pág. 86
5- Idem 1, pág. 8.

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